Às vezes ainda choro. Mesmo quando a lembrança, ou a tristeza já não são novas. Mas são minhas.
Às vezes em lugares diferentes da tristeza, estou eu no normal dos meus dias e sou sensível a um gatilho, um estimulo, algo que vem. Sei que só fala comigo, toca-me, e me emociona. Não me revolta, não fico danada comigo ou com o mundo. Quando somos crianças, ouvimos mil vezes: mas estás a chorar porquê?| Já chega de chorar? | és Algum bebé? Na idade adulta se choramos estamos deprimidos, com problemas graves, somos loucos, ou vem alguém saber de nós. Na essência, choro muito quando me emociono com a vida a acontecer, com a natureza, as bençãos de estar viva, com as conversas do meu filho, da minha avó, as alegrias de tantos momentos. Na essência trago em mim memórias, experiências onde a tristeza existe. Por vezes choro por isso. Há vezes em que falo com essa tristeza. Outras deixo só que esteja em mim, que possa senti-la. Depois ela se esvanece, ou ocupa o lugar onde em mim pode estar. Estar triste (ter raiva ou outro sentimento que nos venderam sempre como negativo) é saber sentir. Saber receber, acolher, viver, arrumar, libertar a tristeza, é uma tarefa para a vida. Devemos dar o nosso melhor em sentir, sem o exagero do que só podemos sentir o bom. Somos como tantas vezes escrevo, luz e sombra. Um lado nada é sem o outro. Cá em casa a tristeza é bem-vinda. Será que isto quer dizer que somos tristes? Obvio que não. Respeitamos as nossas tristezas, os momentos onde nos sentimos tristes, não fugimos dela, não lhe ordenamos que se esconda, não a disfarçamos de outras palavras. O Xavier diz algumas vezes que está triste. Respondemos muitas vezes que é normal sentir tristeza, perguntamos o que entristece e se o podemos ajudar. Ele responde muitas vezes que não que já vai passar. Outras vezes pede colinho ou carinho, abraços. ... Outras vezes pede coisas e diz logo se não me deres vou ficar triste. Ao que respondemos, então acho que vais ficar um pouco... Bem sei que ele não se sabe auto-regular sozinho. Bem sei que muitas vezes nem eu...nem os adultos. Mas dou o melhor para que ele aprenda a sentir e a sentir-se. Dou o melhor para sentir e saber quem sou, todos os dias. Às vezes ainda choro, porque há tristezas que doem mais que outras e sabê-las em mim é tê-las como parte do meu caminho. Não há nada de errado em estar triste... Estar sempre triste é que não é normal...